Nunca saberemos se uma IA é consciente, afirma filósofo
A fronteira entre a ficção científica e a ética tecnológica tornou-se cada vez mais difusa nas últimas décadas. À medida que grandes corporações disputam a liderança na corrida rumo à chamada Inteligência Artificial Geral (AGI) — sistemas capazes de igualar ou superar o intelecto humano em múltiplas tarefas — surge uma pergunta inquietante, quase filosófica: como saber se uma máquina realmente se tornou consciente? Para o Dr. Tom McClelland, filósofo da Universidade de Cambridge, a resposta é ao mesmo tempo simples e profundamente desconfortável: provavelmente nunca saberemos.
Em um estudo recente publicado na revista Mind and Language, McClelland argumenta que nossas evidências sobre o que constitui a consciência são extremamente limitadas, mesmo quando se trata de seres humanos. Segundo ele, a única postura intelectualmente defensável diante do avanço acelerado da inteligência artificial é o agnosticismo. Em outras palavras, não existe — nem deverá existir em um futuro previsível — qualquer teste confiável capaz de detectar a presença da autoconsciência em sistemas baseados em silício.
Um dos pilares centrais de sua argumentação é a distinção entre consciência e senciência, conceitos frequentemente tratados como sinônimos no debate público. Enquanto a consciência pode envolver estados como percepção, atenção ou até autorreconhecimento — características que, isoladamente, podem ser eticamente neutras —, a senciência diz respeito à capacidade de vivenciar experiências subjetivas positivas ou negativas. “A senciência envolve experiências conscientes que são boas ou ruins, e é isso que torna uma entidade capaz de sofrer ou desfrutar. É exatamente nesse ponto que a ética entra em jogo”, explica McClelland.
Para tornar essa diferença mais concreta, o filósofo recorre ao exemplo dos veículos autônomos. Um carro capaz de “perceber” a estrada, identificar obstáculos e tomar decisões complexas representa um avanço tecnológico notável, mas sem qualquer relevância moral intrínseca. O dilema ético só surgiria se esse sistema passasse a desenvolver estados afetivos, como medo, frustração ou prazer em relação ao seu destino — algo que, até o momento, permanece no campo da especulação.
O debate contemporâneo sobre consciência artificial costuma se dividir em dois grandes campos opostos. De um lado estão os crentes, que defendem que, se uma IA reproduzir fielmente a arquitetura funcional da mente humana — o “software” cognitivo —, ela será consciente, independentemente do hardware em que opere. Do outro, estão os céticos, que sustentam que a consciência depende de processos biológicos específicos de organismos vivos, e que qualquer simulação computacional seria apenas uma imitação sem experiência subjetiva real.

McClelland critica ambas as posições, classificando-as como verdadeiros “saltos de fé” desprovidos de sustentação científica robusta. Segundo ele, ainda não possuímos uma explicação satisfatória sobre o que é a consciência, tampouco evidências de que ela possa emergir exclusivamente do processamento computacional, por mais sofisticado que seja.
O filósofo também alerta para os perigos do hype publicitário que envolve a inteligência artificial. Empresas de tecnologia poderiam explorar deliberadamente a impossibilidade de comprovar ou refutar a consciência das máquinas como estratégia de marketing, promovendo a ideia de uma suposta “inteligência superior” ou até “sensível”. Além de enganosa, essa narrativa desviaria atenção e recursos de dilemas éticos muito mais urgentes e concretos.
- Veja também: Compreender a consciência tornou-se urgente diante do avanço da inteligência artificial
McClelland aponta ainda uma contradição evidente no debate público: enquanto muitos se preocupam com a possível sensibilidade de uma “torradeira sofisticada” — como um chatbot avançado —, ignoram o sofrimento de bilhões de animais, como polvos, porcos ou lagostas, cuja capacidade de sentir dor e prazer é muito mais bem respaldada por evidências científicas.
Por fim, o filósofo adverte sobre um risco menos discutido, mas potencialmente profundo: a criação de vínculos emocionais com máquinas. Caso usuários passem a acreditar que seus assistentes virtuais possuem alma, consciência ou direitos morais com base apenas em ilusões linguísticas bem construídas, o impacto psicológico e social pode ser duradouro — e, em certos casos, irreversível.
Quer continuar acompanhando conteúdos como este? Junte-se a nós no Facebook e participe da nossa comunidade!
Seguir no Facebook