Evidência de parto assistido é encontrada em restos neolíticos
Recentemente, uma equipe de pesquisadores da Università di Trento descobriu restos mortais de um neonato no Vale Lamen, na Itália, que apresentam a mais antiga evidência conhecida de um procedimento obstétrico. A análise, que data entre 3932 e 3653 a.C., foi realizada em um abrigo rochoso a 1.100 metros de altitude, dentro do Parque Nacional das Dolomitas Bellunesi.
Descoberta no Vale Lamen, Itália
Os restos foram encontrados no abrigo rochoso conhecido como Ripari Alti, onde a equipe liderada por Omar Larentis, do Laboratório de Arqueologia, Arqueometria e Fotografia (LaBAAF), conduziu escavações entre 2021 e 2024. A localização e o contexto arqueológico indicam que a descoberta se insere nas fases finais do Neolítico, quando comunidades alpinas estavam se consolidando nas áreas montanhosas, possivelmente ligadas a práticas de pastoreio e caça.

Análise dos restos mortais e metodologia
A análise dos restos mortais exigiu uma abordagem metodológica rigorosa, dado que a identificação de traumas perimortem em ossos tão antigos demanda uma discriminação cuidadosa entre lesões anteriores à morte e aquelas causadas no momento do falecimento. A equipe utilizou um protocolo multidisciplinar que combinou observação antropológica direta com técnicas avançadas, como microscopia digital e microscopia eletrônica de varredura ambiental (ESEM), disponíveis no laboratório em Trento.

Implicações da lesão observada
O foco central do estudo foi uma fratura no úmero do neonato. A morfologia e o padrão da fratura, avaliados com microscópios ópticos digitais de alta resolução, mostraram características compatíveis com lesões derivadas de partos distócicos. A confirmação definitiva veio da observação com o microscópio eletrônico, que revelou micro-fraturas indicativas de uma força aplicada a um tecido vivo, sugerindo que a lesão foi causada por uma manobra obstétrica durante um parto difícil.

Contexto arqueológico e relevância histórica
Além da fratura, a análise das superfícies das tíbias e da mandíbula do feto revelou microlesões que indicam estresse metabólico ou nutricional durante a gestação. Isso sugere que a mãe pode ter enfrentado deficiências alimentares significativas. A descoberta é considerada a mais antiga evidência direta de uma manobra obstétrica documentada até hoje, superando referências indiretas baseadas em tradições etnográficas ou fontes escritas de períodos posteriores.
A pesquisa não apenas amplia o entendimento sobre práticas obstétricas no Neolítico, mas também fornece uma nova perspectiva sobre as condições de vida e os desafios enfrentados pelas comunidades da época. A relevância histórica da descoberta pode contribuir para um melhor entendimento das práticas sociais e de saúde nas sociedades pré-históricas.
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