Cientistas propõem nova forma de buscar sinais de inteligência alienígena
A busca por vida extraterrestre pode estar deixando de lado um tipo importante de evidência: sinais de inteligência que não dependem de tecnologia avançada nem se limitam a processos biológicos. Um estudo recente propõe que cientistas ampliem essa abordagem ao considerar indícios produzidos por mentes conscientes, mesmo antes do desenvolvimento de comunicações por rádio ou de grandes avanços tecnológicos.
A proposta foi apresentada pela astrobióloga norte-americana Julia DeMarines, pesquisadora que já participou de estudos sobre bioassinaturas e tecnossinaturas. Em entrevista ao Space.com, ela defende a criação de uma nova categoria de evidências, chamada de “noossinaturas”, voltada à identificação de marcas deixadas por inteligência consciente na matéria.
Segundo DeMarines, a ideia é preencher a lacuna entre as bioassinaturas — sinais associados à atividade biológica — e as tecnossinaturas, que indicam a presença de tecnologias avançadas detectáveis a grandes distâncias. O objetivo é investigar formas de inteligência que possam existir sem necessariamente desenvolver rádio, satélites ou outras tecnologias sofisticadas.
O conceito faz parte do campo da noossemiótica, inspirado na noção filosófica grega de nous, relacionada à mente e ao pensamento. A base teórica remonta ao conceito de noosfera, desenvolvido na década de 1920 pelo bioquímico Vladimir Vernadsky e pelo filósofo e padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin para descrever a esfera do pensamento humano envolvendo a Terra.
Mais recentemente, pesquisadores como Adam Frank, David Grinspoon e Sara Imari Walker passaram a aplicar essa ideia aos estudos do SETI (Search for Extraterrestrial Intelligence), tratando a inteligência coletiva de um planeta como uma espécie de sistema cognitivo em escala planetária. Nesse contexto, uma noossinatura seria qualquer evidência observável da atuação de mentes conscientes.
O exemplo do pão
Para explicar o conceito, DeMarines utiliza um exemplo incomum: o pão. Durante um projeto envolvendo a chamada Teoria da Montagem (Assembly Theory), ela recebeu a tarefa de analisar o alimento como uma possível assinatura de inteligência.
Segundo a pesquisadora, o pão não surge naturalmente no ambiente. Sua produção depende de conhecimento acumulado, técnicas agrícolas, processamento de grãos e transmissão cultural ao longo de milhares de anos. “O pão não simplesmente aparece em uma nuvem molecular; ele exige tecnologia, história e inteligência”, afirmou ao Space.com.
A Teoria da Montagem, desenvolvida pela pesquisadora Sara Walker e pelo químico Lee Cronin, busca medir a complexidade de um objeto pelo número mínimo de etapas necessárias para sua construção. Esse processo é representado pelo chamado Índice de Montagem (Assembly Index).
Aplicando esse conceito, DeMarines argumenta que a evolução do pão — desde preparações feitas com grãos silvestres há cerca de 14 mil anos até os processos modernos de produção industrial — reflete o desenvolvimento gradual da inteligência e da cultura humanas. Mudanças na agricultura, domesticação do trigo, construção de moinhos e produção em larga escala aumentariam esse índice ao longo do tempo.
Inteligência além da tecnologia
A pesquisadora afirma que nem toda inteligência precisa resultar em grandes realizações tecnológicas. Como exemplo, ela cita os golfinhos, animais conhecidos por seu comportamento social complexo e elevado nível cognitivo.
Segundo DeMarines, embora esses animais dificilmente desenvolvam ferramentas tecnológicas comparáveis às humanas devido às limitações físicas de suas nadadeiras, isso não significa ausência de inteligência. A questão central passa a ser identificar se esse tipo de inteligência deixa marcas detectáveis no ambiente.
Outro exemplo apresentado envolve a agricultura. De acordo com a pesquisadora, práticas agrícolas humanas alteram o ciclo natural do nitrogênio por meio da liberação de gases na atmosfera. Ela observa que aproximadamente três quartos das emissões humanas de nitrogênio ocorreram antes da industrialização, resultado do cultivo agrícola, da criação de animais e da atividade microbiana em solos utilizados pelo ser humano.
Na avaliação de DeMarines, esse desequilíbrio químico pode representar uma noossinatura em escala planetária. Caso alterações semelhantes possam ser detectadas em exoplanetas, elas poderiam indicar a atuação de uma civilização inteligente, mesmo sem sinais diretos de tecnologia avançada.
Uma nova abordagem para a busca por vida extraterrestre
Atualmente, a pesquisadora reconhece que o principal desafio não é comprovar a existência dessas assinaturas, mas desenvolver métricas capazes de defini-las e estabelecer limites que diferenciem processos naturais de alterações produzidas por inteligência.
Se essa linha de pesquisa avançar, a busca por vida extraterrestre poderá incorporar novos tipos de evidência além das bioassinaturas e das tecnossinaturas tradicionais. A hipótese também levanta a possibilidade de que a inteligência humana tenha se tornado detectável no universo muito antes da invenção das transmissões de rádio, por meio das transformações ambientais provocadas pela própria civilização.
O trabalho de Julia DeMarines foi disponibilizado em um artigo publicado no repositório científico de acesso aberto arXiv e amplia o debate sobre como identificar possíveis manifestações de inteligência em outros mundos, mesmo quando elas não seguem os modelos tecnológicos normalmente considerados nas pesquisas atuais.
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