A agricultura se espalhou por meio da migração, não pela adoção local, revela DNA antigo.

Um novo estudo interdisciplinar de pesquisadores da Penn State, publicado na Nature Communications, fornece a resposta mais definitiva até agora. Por meio da combinação de análise de DNA antigo, registros arqueológicos e simulações computacionais avançadas, os cientistas concluíram que a agricultura se espalhou principalmente por migração humana e não apenas por ideias. A adoção cultural teve papel mínimo.
“Arqueologia e genética oferecem perspectivas complementares sobre essa transição”, explicou Christian Huber, professor assistente de biologia na Penn State e autor sênior da pesquisa. “Artefatos e isótopos em ossos antigos podem revelar se uma pessoa dependia de plantas ou animais domesticados, refletindo a adoção de novas práticas agrícolas. Ao mesmo tempo, o DNA preservado nesses ossos pode mostrar de onde vieram os ancestrais das pessoas, fornecendo evidências de migração, ou seja, do movimento de populações agrícolas para novas regiões.”
Eles construíram simulações que modelaram crescimento populacional, migração e aprendizado cultural, comparando-os com cronologias de radiocarbono e dados de DNA de 618 pessoas do Neolítico de toda a Europa. Os resultados mostraram que a disseminação da agricultura foi em grande parte resultado da migração. A contribuição da difusão cultural — transferência de práticas sem deslocamento de pessoas — foi extremamente pequena, cerca de 0,5%.

“A taxa de assimilação, ou seja, a velocidade com que caçadores-coletores eram incorporados às comunidades agrícolas, era na verdade muito baixa — apenas cerca de um em cada mil agricultores convertia um caçador-coletor à agricultura por ano”, explicou Huber. “Como resultado, a transmissão cultural teve quase nenhum efeito na rapidez com que a agricultura se espalhou. Ainda assim, mesmo nessa baixa taxa, deixou uma marca duradoura no DNA dos europeus atuais e introduziu traços genéticos úteis nas crescentes comunidades agrícolas.”
O autor principal, Troy LaPolice, estudante de pós-graduação na Penn State, destacou a surpresa com esses achados. “O que descobrimos foi surpreendente: quando culturas se espalham por migração, não é garantido que os padrões de ancestralidade local mudem, mas a expansão da agricultura conseguiu deixar um impacto forte e duradouro na ancestralidade europeia”, afirmou.

O estudo também mostra quão rígidas eram as fronteiras sociais na época. Segundo os modelos, os agricultores se casavam dentro de suas comunidades, assim como os caçadores-coletores. Casamentos “entre grupos” eram raros — menos de três por cento. Esse padrão é confirmado por outros estudos de DNA antigo, que mostram que, mesmo quando agricultores e forrageiros viviam lado a lado por séculos, permaneciam geneticamente distintos.
Ao combinar dados arqueológicos com informações genéticas, os pesquisadores reconstruíram como a agricultura se espalhou do Crescente Fértil para os Bálcãs e, depois, por toda a Europa. O estudo revela que, embora ideias possam se mover independentemente, no caso da agricultura primitiva, foram os próprios agricultores — levando plantas, animais e seus genes — que impulsionaram uma das maiores revoluções da história humana.
Mais informações: Pennsylvania State University
Publicação: LaPolice, T.M., Williams, M.P. & Huber, C.D. (2025). Modeling the European Neolithic expansion suggests predominant within-group mating and limited cultural transmission. Nat Commun 16, 7905. doi:10.1038/s41467-025-63172-0