A vida alienígena pode ser roxa
A imagem do “homenzinho verde” pode estar errada há décadas. Uma pesquisa da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, sugere que a vida em outros planetas pode ter uma tonalidade bem diferente do que o imaginário popular costuma projetar: roxa. O estudo foi publicado no periódico Monthly Notices of the Royal Astronomical Society.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADEPor que roxo e não verde?
Na Terra, as plantas são verdes porque utilizam a clorofila — uma molécula que absorve luz vermelha e azul, mas reflete a luz verde. Esse processo, a fotossíntese, é a base da vida vegetal no nosso planeta. Mas em mundos com condições diferentes, especialmente aqueles que orbitam estrelas anãs vermelhas (mais frias e com emissão de luz distinta do Sol), esse mecanismo pode nunca ter surgido. Em vez disso, outro tipo de organismo poderia dominar: as bactérias roxas.
O que são bactérias roxas?
Esses micro-organismos já existem na Terra, mas ocupam nichos ecológicos restritos. Eles realizam um processo semelhante à fotossíntese usando luz vermelha e infravermelha de baixa energia — exatamente o tipo de radiação mais abundante em torno de estrelas mais frias. Há dois grupos principais estudados: as bactérias roxas sulfurosas e as bactérias roxas não-sulfurosas. Segundo a doutoranda de Cornell Lígia Fonseca Coelho, responsável pelo estudo, essas bactérias “já prosperam aqui em certos nichos — imagine se não estivessem competindo com plantas verdes, algas e bactérias: um sol vermelho poderia lhes dar as condições mais favoráveis para a fotossíntese.”
Como o estudo foi conduzido
Para entender a assinatura química e visual que um planeta dominado por bactérias roxas emitiria, Coelho e sua equipe coletaram 20 amostras dessas bactérias em diferentes locais ao redor do mundo — incluindo fontes hidrotermais e até lagoas próximas ao próprio campus de Cornell. A partir dessas amostras, os pesquisadores desenvolveram modelos computacionais de planetas semelhantes à Terra em diferentes ambientes, tanto úmidos quanto áridos, para simular como esses mundos apareceriam a telescópios distantes.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADEA “impressão digital” de luz que pode revelar vida
O resultado mais relevante da pesquisa é a identificação de uma assinatura espectral específica — uma espécie de “impressão digital” luminosa — que bactérias roxas emitiriam em escala planetária. Essa assinatura, segundo o estudo, seria potencialmente detectável por observatórios de próxima geração, como o Extremely Large Telescope, do Observatório Europeu do Sul, atualmente em construção no Chile. Em muitos dos modelos simulados, essa impressão digital veio de volta com tonalidade roxa.
A Terra já foi roxa?
Curiosamente, a ideia de um planeta roxo não é apenas ficção científica para o futuro — pode ser parte do passado da própria Terra. Um estudo separado da Universidade de Maryland, publicado em 2022, argumentou que antes do surgimento da clorofila, nosso planeta era dominado por uma molécula chamada retinal, que absorvia luz verde e refletia vermelho e violeta. Para os olhos humanos, esse planeta antigo teria aparência roxa. Quando a clorofila surgiu — favorecida pelo aumento dos níveis de oxigênio na atmosfera —, ela absorveu os comprimentos de onda que o retinal já não aproveitava, e a Terra foi gradualmente ficando verde.
Onde buscar esses mundos roxos?
O foco da busca deve ser exoplanetas com baixo teor de oxigênio que orbitam estrelas anãs vermelhas — as mais comuns na Via Láctea. Coelho simulou cenários variados: de uma Terra congelada a um mundo oceânico, passando por um planeta “bola de neve” e por um análogo terrestre orbitando uma estrela mais fria. Em todos esses cenários, as bactérias roxas apresentaram condições favoráveis para prosperar e, potencialmente, dominar a superfície do planeta.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADECom as ferramentas certas já em desenvolvimento, a ciência está cada vez mais perto de conseguir distinguir, a partir de bilhões de quilômetros de distância, se um planeta tem vida — e de que cor ela é. Se Coelho e sua equipe estiverem corretas, a primeira assinatura biológica detectada em outro mundo pode não ser o verde familiar das florestas terrestres, mas sim o roxo vibrante de bactérias que sobrevivem sob uma luz que nossos olhos mal conseguem enxergar.
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