Cientista alerta sobre a “vida espelho”: uma ameaça sintética que poderia aniquilar a humanidade

Segundo Glass, nas próximas décadas os cientistas provavelmente terão a capacidade de criar organismos cujas moléculas sejam imagens espelho das encontradas na natureza. Esse avanço, que rompe radicalmente com a biologia sintética tradicional, pode trazer perigos sem precedentes.
O que é a vida espelho e por que ela é tão perigosa?
A biologia sintética, campo de especialização de Glass, tem se concentrado há décadas na engenharia de células e bactérias para criar vacinas, biocombustíveis e medicamentos. No entanto, a vida espelho utilizaria componentes totalmente diferentes dos de qualquer forma de vida conhecida. Seu DNA, por exemplo, se enrolaria para a esquerda, em contraste com o nosso, que se enrola para a direita.
Embora a pesquisa em células espelho ainda seja limitada, já existem esforços para construir um “ribossomo espelho” — a fábrica de proteínas da célula. Uma vez alcançado esse marco, seria relativamente simples criar bactérias espelho, a forma mais básica dessa nova vida.
É nesse ponto que, segundo Glass, abrir-se-ia a caixa de Pandora: tais bactérias poderiam escapar do nosso sistema imunológico, resistir a medicamentos e ficar fora do alcance dos controles naturais do ecossistema.
“Nosso sistema imunológico produz respostas de anticorpos muito fracas, ou nulas, contra as moléculas espelho”, explica o cientista. Uma infecção bacteriana desse tipo poderia equivaler a sofrer múltiplas imunodeficiências ao mesmo tempo. No meio ambiente, esses organismos seriam resistentes a predadores naturais, como vírus e amebas, o que lhes permitiria se espalhar sem controle, alterar cadeias alimentares e causar infecções letais em diversas espécies.
“Áreas contaminadas poderiam tornar-se irreversivelmente inabitáveis, comprometendo nossa agricultura e o mundo natural. Um número imenso de pessoas, animais e plantas poderia ser aniquilado”, alerta o cientista.
Um chamado à ação preventiva
Felizmente, a comunidade científica tem reconhecido esses riscos antes de um ponto sem retorno. Glass destaca uma reunião histórica no Instituto Pasteur, em Paris, onde mais de 150 cientistas, legisladores e especialistas da OMS e da ONU se reuniram para discutir a ameaça da vida espelho. O consenso foi a necessidade de uma regulamentação rígida e de leis que proíbam sua criação.
Glass concorda e ressalta a urgência de agir: “O desenvolvimento de leis pode levar anos. Mas as agências de fomento podem criar barreiras concretas hoje”, afirma, citando como exemplo a Fundação Alfred P. Sloan, que já declarou não apoiar pesquisas destinadas a criar organismos espelho.

No próximo ano, instituições de prestígio como as Academias Nacionais de Ciências dos EUA, a Universidade de Manchester e Harvard realizarão reuniões para definir “linhas vermelhas” que protejam o planeta sem impedir os avanços de outras áreas da biologia sintética. Glass compara esse momento à crise do ozônio, quando pesquisadores se uniram para proibir os clorofluorcarbonos.
Agora, porém, existe uma oportunidade ainda mais rara: evitar uma ameaça global antes que cause danos. “A solução é clara: devemos optar por não construir a vida espelho e aprovar leis que garantam que ninguém possa fazê-lo”, conclui.
A questão não é se podemos prevenir a ameaça, mas se agiremos enquanto ainda temos tempo.