Precognição: a evidência de que podemos ter memórias do futuro?

Numa noite de outubro de 1989, uma menina de quatro anos acordou assustada com o som do telefone e um grito. “Morreu em um acidente de carro!”, ouviu sua mãe dizer com a voz embargada. A menina não se surpreendeu; desde o momento em que abraçou o pai antes de ele seguir para o aeroporto, teve a certeza de que não o veria vivo novamente.
Este é um dos inúmeros e muitas vezes inquietantes relatos de precognição reunidos pela cientista cognitiva Julia Mossbridge. No entanto, foi sua própria experiência com essas estranhas “intuições” psíquicas que a motivou a estudá-las. Mossbridge, junto a outros pesquisadores como o parapsicólogo Dean Radin, propõe uma ideia revolucionária: essas premonições poderiam ser memórias do futuro, sugerindo que nossa percepção linear do tempo é uma ilusão.
“Não é difícil entender a precognição”, afirma Mossbridge. “É simplesmente difícil de acreditar para quem nunca a experimentou. Não entendemos como o tempo funciona. Até mesmo os físicos admitem que não sabem. Estamos presos à ideia de que, para ser verdadeiramente científico, você deve pensar o tempo de forma linear, mas será que ele realmente é linear?”
Longe da imagem de adivinhos de feira, psicólogos e neurocientistas têm tentado desvendar o que está por trás da precognição. Dean Radin, cientista-chefe do Instituto de Ciências Noéticas (IONS), pesquisa a consciência há décadas e acredita que ela pode “saltar” para fora de nossa experiência cotidiana para receber informações do passado ou do futuro.
Para demonstrar isso, em meados da década de 1990, Radin realizou um experimento: conectou vários participantes a um eletroencefalograma (EEG) para medir sua atividade cerebral enquanto eram mostradas imagens aleatórias, que podiam ser positivas (um nascer do sol) ou negativas (um acidente). Os resultados foram surpreendentes: o EEG registrava um pico de atividade cerebral nos segundos anteriores à apresentação de uma imagem negativa, como se o cérebro dos participantes antecipasse o impacto emocional.
Esse experimento foi replicado com sucesso mais de trinta vezes, apresentando resultados estatisticamente significativos.

Segundo Radin, uma possível explicação poderia ser o entrelaçamento quântico, o que Einstein chamou de “ação fantasmagórica à distância”. “Alguns levantam a hipótese de que a precognição é o seu cérebro entrelaçado consigo mesmo no futuro”, explica. “Se ele puder se entrelaçar consigo mesmo no futuro, no presente você sentiria algo parecido com uma memória do que vai acontecer.”
A ideia de que agências governamentais levaram esses fenômenos a sério não é ficção. Em 1995, a CIA desclassificou sua própria pesquisa sobre precognição, considerada confiável por estatísticos. Esses estudos faziam parte de um programa mais amplo e secreto, conhecido como Projeto Stargate, que esteve ativo da década de 1970 até 1995.
O objetivo do Projeto Stargate era investigar o potencial dos fenômenos psíquicos, principalmente a “visão remota” (a capacidade de “ver” eventos ou lugares à distância), para aplicações de inteligência militar e doméstica.
Nos arquivos desclassificados encontra-se o documento intitulado Precognição: uma memória de coisas futuras?. Escrito pelo físico G. Feinberg para uma conferência sobre Física Quântica e Parapsicologia em 1974, o texto sugere uma hipótese semelhante à dos cientistas atuais: a precognição poderia ser análoga à memória, mas operando em direção ao futuro. Feinberg argumentava que as leis da física não proíbem fenômenos em que causa e efeito ocorrem em ordem temporal inversa, e que, se a precognição existe, seria mais fácil que funcionasse sobre o estado futuro do próprio cérebro do indivíduo do que sobre o mundo externo.
Apesar de algumas anedotas sobre supostos sucessos, o Projeto Stargate foi finalmente cancelado. Um relatório encomendado pela CIA concluiu que o programa nunca havia fornecido informações de inteligência úteis e que a existência desses fenômenos não havia sido demonstrada de forma conclusiva.
Ainda assim, o fato de terem sido investidos milhões de dólares e mais de duas décadas em seu estudo demonstra o profundo interesse que despertou nas mais altas esferas da inteligência. Para Mossbridge, a resistência em aceitar a validade dessas experiências se baseia em grande parte no “medo do desconhecido ou no medo de que as coisas não sejam como parecem ser”.
Referências:
- Precognition: A memory of things future? – G. Feinberg (1974)
- Your Consciousness Can Jump Through Time — Meaning ‘Gut Feelings’ Are Memories From the Future, Scientists Say – Elizabeth Rayne (2025)