A Hipótese Escatiana: nova forma de detectar vida extraterrestre
Um novo preprint do astrônomo David Kipping, professor assistente da Universidade de Columbia, sugere que o primeiro contato da humanidade com vida extraterrestre poderá ser tudo menos glorioso — e possivelmente bastante sombrio.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADEDesde pelo menos a época de Epicuro (341–270 a.C.), os seres humanos especulam sobre a existência de outras formas de vida no universo. O filósofo grego defendia que a multiplicidade de mundos era uma consequência natural da infinitude da matéria.
“Há um número infinito de mundos, alguns semelhantes a este, outros diferentes. Pois, sendo os átomos infinitos em quantidade, eles continuam avançando eternamente em seu curso”, escreveu Epicuro em uma carta a Heródoto. “Os átomos a partir dos quais um mundo poderia surgir não foram todos utilizados em um único mundo ou em um número finito deles. Nada, portanto, impede a existência de infinitos mundos.”
No último século, cientistas têm tentado avançar na tarefa extremamente difícil de detectar vida fora da Terra. O desafio é enorme: conhecemos vida inteligente (ou quase isso) em apenas um planeta, e a partir desse único exemplo precisamos extrapolar como inteligências alienígenas poderiam se comportar.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADECom frequência, nossas ideias sobre civilizações extraterrestres avançadas refletem nossos próprios valores e trajetórias. Supomos que elas buscariam cada vez mais poder, energia e recursos, expandindo-se continuamente — assim como a humanidade fez. Daí surgem conceitos como as Esferas de Dyson e outras megaconstruções hipotéticas, criadas para suprir necessidades energéticas colossais, ou a ideia de civilizações capazes de explorar toda uma galáxia.
Apesar de décadas observando o céu, não encontramos evidências desse tipo de atividade. Algumas supostas anomalias, inclusive, acabaram se revelando explicações bastante mundanas — como simples interferências ou até objetos curiosos apelidados de “cachorros-quentes cósmicos”.
Mas e se essas expectativas forem, na verdade, sinais de uma espécie ainda imatura — ou de curta duração?
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE“Parafraseando uma famosa frase de Arthur C. Clarke, o escritor de ficção científica Carl Schroeder escreveu certa vez: qualquer civilização suficientemente avançada é indistinguível da natureza”, explica Kipping em um vídeo do canal Cool Worlds. “Civilizações alienígenas muito avançadas e maduras podem existir, mas jamais saberíamos disso, pois elas se tornariam tão sustentáveis que não deixariam assinaturas detectáveis.”
Essa ideia está no cerne da chamada Hipótese Escatiana (Eschatian Hypothesis), proposta por Kipping. Segundo ela, as civilizações extraterrestres mais fáceis de detectar não seriam as estáveis e duradouras, mas sim as instáveis, transitórias e atípicas — justamente por serem mais “barulhentas”.
No artigo, que ainda não passou por revisão por pares, Kipping observa que, historicamente, a astronomia tende a detectar primeiro os eventos mais raros e extremos, não os mais comuns. Isso acontece porque os outliers se destacam com mais facilidade.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADEUm exemplo disso é a descoberta dos primeiros exoplanetas, que foram encontrados orbitando pulsares — estrelas de nêutrons extremamente densas, altamente magnetizadas e de rotação rápida. Por um tempo, isso colocou em dúvida a ideia de que outros sistemas planetários poderiam ser semelhantes ao nosso.
Com o avanço das observações, mais de 6 mil exoplanetas já foram identificados, mas menos de dez deles orbitam pulsares. Já as supernovas, que ocorrem em média duas vezes por século em uma galáxia, são detectadas aos milhares todos os anos devido ao seu brilho intenso, visível a grandes distâncias.
“A Hipótese Escatiana”, escreve Kipping, “argumenta que a primeira detecção confirmada de outra inteligência pela humanidade pode ser a de um exemplo inerentemente instável, transitório, atípico — porém extremamente ruidoso.”
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Na busca por sinais de vida, muitos pesquisadores sugerem observar fenômenos semelhantes aos que tornam a própria humanidade detectável, como o aquecimento planetário causado pelo efeito estufa, poluição e consumo excessivo de energia. No entanto, esses desequilíbrios são claramente insustentáveis e, portanto, tendem a existir por períodos curtos.
Segundo Kipping, durante essa fase “barulhenta”, uma civilização pode consumir uma parcela significativa de toda a energia que gastará ao longo de sua existência. Assim como uma supernova, que brilha intensamente por um curto intervalo antes de desaparecer, essas civilizações seriam temporariamente muito mais visíveis do que aquelas que alcançaram um estado de equilíbrio com o ambiente.
“Nesse cenário, o primeiro contato ocorre com uma civilização em seus estertores finais, debatendo-se violentamente antes do colapso”, afirma Kipping no vídeo. “Tal espécie pode até reconhecer sua extinção iminente e decidir enviar mensagens ao espaço como um último recurso desesperado. Quando se enfrenta a aniquilação interna, o medo de ameaças externas desaparece. Não há nada a perder e tudo a ganhar.”
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Para aumentar as chances de detecção, Kipping sugere monitorar grandes áreas do céu e revisitar constantemente as mesmas regiões, em busca de eventos transitórios — sinais que surgem e desaparecem em escalas de tempo relativamente curtas, não astronômicas.
Em resumo, nossa melhor chance de um primeiro contato pode não estar em civilizações avançadas e equilibradas, como as retratadas nos filmes, mas sim em “gritos altos na escuridão” — os últimos sinais de uma civilização condenada.
O artigo está disponível como preprint no servidor arXiv.
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