Escultura de Bacchante em Tusculum pode ter pertencido a Cícero
Uma escultura de mármore com mais de dois mil anos, encontrada em banhos romanos, pode ser uma das famosas bacchantes adquiridas pelo orador Marco Túlio Cícero em 46 a.C. e que ele nunca chegou a apreciar. A descoberta ocorreu em Tusculum, na Itália, durante uma campanha de escavação realizada em 9 de junho de 2023 por uma equipe de arqueólogos da Escola Espanhola de História e Arqueologia em Roma (EEHAR-CSIC).
Descoberta da escultura em Tusculum
A escultura, que representa uma bacchante — seguidora do deus Baco —, foi desenterrada em um espaço amplo pavimentado com mármore, que fazia parte de banhos públicos construídos durante o reinado do imperador Calígula e posteriormente reformados sob Adriano. A peça estava enterrada sob camadas medievais, o que dificulta a determinação exata de quando foi colocada ali, mas seu estilo e acabamento indicam que remonta ao meio do século I a.C., coincidente com o período em que Cícero decorava sua villa em Tusculum.
Características da escultura e seu significado
A escultura tem 1,50 metros de altura (sem a cabeça) e é esculpida em um único bloco de mármore pentélico, material utilizado pelos grandes escultores gregos. A figura apresenta uma mulher com o torso nu, vestida com um leve quimono que se adere ao corpo e um manto cruzando o ombro esquerdo. Um detalhe distintivo é o nebris, a pele de um cervo, amarrada com um nó, que a diferencia de outras versões do mesmo modelo, como a Afródite Armada de Epidaurus, que usa uma faixa com bainha de espada. Os autores do estudo, David Hernández Castro e Antonio Pizzo, afirmam que a escultura de Tusculum é tecnicamente superior a outras quatro cópias conhecidas, destacando a qualidade do modelado e o naturalismo dos drapeados.
Relação de Cícero com a compra das estátuas
A conexão entre a escultura e Cícero é documentada em uma carta que o político romano enviou a seu amigo Galho em dezembro de 46 a.C. Nela, Cícero expressa sua indignação pelo fato de Galho, atuando como intermediário, ter comprado quatro ou cinco estátuas e um suporte de mesa de um escultor chamado Avianius Evandros sem consultá-lo. Cícero critica não apenas o preço exorbitante, mas também o tema das peças, que incluíam bacchantes, figuras associadas ao culto dionisíaco, que ele considerava inadequadas para a decoração de sua villa.
Cícero preferia estátuas de musas, mais apropriadas para sua biblioteca e estudos literários. Além disso, a compra incluía uma estátua de Marte, o deus da guerra, que ele considerava especialmente inoportuna, uma vez que se apresentava como “defensor da paz”. Apesar de sua insatisfação, Cícero reconhece a beleza das estátuas, afirmando que as conhecia bem e as havia visto com frequência.
Implicações da descoberta para a história da escultura
A descoberta da escultura em Tusculum não apenas enriquece o conhecimento sobre a produção artística da época, mas também lança luz sobre a figura de Evandros, um escultor anteriormente conhecido apenas por fontes literárias. A qualidade da obra sugere que pode ter sido criada pelo próprio artista, e não uma cópia mecânica, o que levanta questões sobre a prática artística e as relações comerciais na Roma antiga. A escultura pode, portanto, oferecer novas perspectivas sobre a estética e as preferências culturais de figuras proeminentes como Cícero.
A descoberta da escultura de bacchante em Tusculum representa um importante avanço na compreensão da arte romana e suas interações sociais. A relação entre Cícero e a compra das estátuas revela não apenas suas preferências estéticas, mas também os dilemas enfrentados por figuras públicas em relação à imagem que desejavam projetar. A escultura, agora resgatada do esquecimento, pode contribuir para um entendimento mais profundo da cultura e da sociedade romana em um período de transição.
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